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O papa e o processo de reabilitação de Padre Cícero

O papa e o processo de reabilitação de Padre Cícero


O papa Bento XVI foi o pontífice que “mais se interessou pelas questões da paróquia de Juazeiro do Norte e as romarias que reúnem 2 milhões de fiéis, todos os anos,” por causa do mito criado em torno da vida do padre Cícero Romão Batista. A constatação é de dom Fernando Panico, bispo da Diocese do Crato, responsável pela condução da Igreja Católica na região do Cariri cearense. Lugar distante 504 km da capital Fortaleza.

Foi o então cardeal Josef Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que incentivou dom Fernando Panico “a estudar e iniciar o processo de reabilitação do padre Cícero”. Padre Cícero foi suspenso das ordens, pelo Vaticano, em 1894 por causa dos supostos milagres experimentados pela beata Maria de Araújo, em Juazeiro do Norte (CE). Independente da interdição oficial de Roma, o padre acabou sendo “santificado” pelo povo da região Nordeste do Brasil. Um “santo do sol” nos dizeres das irmãs de caridade, e estudiosas das romarias de Juazeiro, Annette du Moulin e Tereza Guimarães.

Bento XVI, apesar de ser considerado de linha conservadora, enxergou que a Cúria em Roma não poderia mais ficar de costas para um fenômeno popular e religioso que foi tratado por muito tempo como manifestação do “fanatismo” de miseráveis. Apesar de torcer o nariz, o Vaticano nunca se fechou ao espólio de padre Cícero e a economia gerada por romeiros. O atual papa, de acordo com dom Fernando, entendeu que a Igreja não poderia “ignorar a fé de milhões de romeiros que têm em Juazeiro do Norte, no sul do Ceará, um lugar de peregrinação”.

Com mais de 19 anos de vida pastoral no Nordeste – entre Maranhão e Piauí – o italiano Fernando Panico decidiu se empenhar na recuperação das ordens de padre Cícero. Foi quando dom Fernando chegou, em 2001, para ser bispo na Diocese de Crato. Os documentos para reabilitação do padre cearense foram entregues ao cardeal Josef William Levado, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em Roma, no dia 30 de maio de 2006. Ocasião em que até o então governador do Ceará, Lúcio Alcântara, fez parte da comitiva que foi ao Vaticano.

“Pena”, segundo dom Fernando, que a reabilitação de padre Cícero não se dará pelas mãos de Beto XVI que renunciou ao papado católico na manhã da última segunda-feira de Carnaval. “Ele se mostrava preocupado com a demora do processo e prometeu, num encontro comigo em Roma, que ia acelerar (o julgamento)”, revela.

Para dom Fernando “fica em nós uma grande saudade de um homem muito próximo a nós. Ele conheceu muito sobre as romarias daqui. Queria salvaguardar Juazeiro do Norte e a fé que move homens e mulheres simples a se deslocarem para dias de devoções no Cariri”.

O POVO apurou que o afastamento definitivo de Bento XVI, a partir do próximo dia 28, trará interinamente para a cadeira de papa o cardeal Tarcísio Bertone. Ele passou três dias em Juazeiro do Norte, em 1995. Veio ciceroneado pelo bispo Valério Breda, da Diocese de Penedo (Alagoas), para se informar sobre investigações relacionadas ao processo de Padre Cícero.

Segundo Armando Rafael, chanceler da Diocese do Crato, a visita foi propositalmente discreta e teria rendido pouco para a reabilitação. Trabalho retomado por dom Fernando. “Quando dom Panico assumiu o bispado daqui, dom Newton Holanda (ex-bispo do Crato) entregou a ele um envelope contendo uma consulta do Vaticano sobre o caso envolvendo o perdão definitivo ao Padre Cícero”, recorda.

Missão continuada

Dom Fernando avalia que o papa Bento XVI é responsável pela abertura do catolicismo à pós-modernidade. Foi ele, segundo o religioso, que continuou a missão “profética” de João Paulo II, quando iniciou a chamada “modernização da igreja”.

Bento XVI, de acordo com dom Fernando, “fez dialogar cultura, razão e fé”. O cardeal Ratzinger, na avaliação do bispo do Cariri, aproximou conceitos que, aparentemente, são antagônicos ou estão colocados em campos opostos. Ele, segundo dom Fernando, é o papa da “heroica resistência ao relativismo”, onde tudo pode segundo a vontade de cada um e “não da doutrina cristã”.

Bento XVI não foi o papa que se abriu para questões como o uso de preservativo ou de mudanças relacionadas à homoafetividade. “É preciso também saber a hora de fechar (a porta). Não significa abrir as portas e janelas para a ventania entrar”, diz dom Fernando.

O atual papa, que abdicou do cargo político mais importante na Igreja Católica desde Pedro, é considerado por dom Fernando o pontífice “que mostrou ao mundo caduco que a instituição é jovem”.

De acordo com dom Fernando Panico, a atitude de Bento XVI em ter renunciado não é uma demonstração de “fracasso ou fragilidade”. Para o bispo do Crato, a notícia que surpreendeu o mundo pode ser considerada um “ato heroico, um ato de humildade em reconhecer que não reúne forças físicas para continuar” no comando da igreja. “As páginas que ele escreveu não serão deletadas” por causa da abdicação.

Entre os documentos entregues por dom Fernando Panico, no Vaticano em 2006, está uma carta do próprio bispo ao papa Bento XVI onde ele escreve: “Venho, com toda esperança e humildade, suplicar à Vossa Santidade que se digne reabilitar canonicamente o padre Cícero Romão Batista, libertando-o de qualquer sombra e resquício das acusações por ele sofridas”. Além do pedido formal, há a assinatura de 270 bispos brasileiros favoráveis à reabilitação. Padre Cícero chegou a ser absolvido pelo Papa Leão XII, mas o bispo do Ceará, dom Joaquim Vieira, decidindo que o sacerdote não poderia celebrar, confessar ou fazer sermões, enquanto não viesse de Roma o decreto de reabilitação.

Fonte: http://www.opovo.com.br/



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